Quando eu tinha dez anos, eu peguei uma surra de minha mãe. Eu mentira para ela, e ela descobriu. Aos 14 anos, outra surra. Mais uma mentira descoberta. Nesse dia ela me falou uma coisa que me marcou profundamente e que nortearia minha vida para sempre. Ela disse: “Filha, por piores que sejam seus atos e as consequências que eles possam trazer-lhe, assuma-os, se você fez, admita que fez, porque mais cruel que seja a verdade, ela dói menos que uma mentira descoberta. Não minta e não se omita diante da verdade”. Depois de duas mentiras frustradas e duas surras, aprendi a lição.
Não direi que não minto, não sou perfeita. Mas procuro, na maior parte dos casos falar a verdade. Nunca disse aos meus filhos, por exemplo, que “ vou ali e não demoro” sabendo que passaria o dia fora, trabalhando. Seria uma mentira que os magoaria, pois ficariam esperando a mamãe voltar rapidinho e ela demoraria a chegar. Digo que vou trabalhar e passar o dia fora e que os amo. Nunca disse: “ Eu te amo!” sem sentir, nada é mais cruel. Nunca disse “Você está linda!” sem ser verdade... e por aí vai. Mas esse meu excesso de verdade não agrada a todos, parece que as pessoas preferem mentirinhas “inofensivas”. (Será que existe isso?)
Mas o que me chateia é que, todas as vezes que falo a verdade, sou castigada e condenada por isso. É verdade! Minhas verdades sempre terminam, para mim, em perdas. Daí me pergunto “Por que ser tão franca? Por que não mentir ou omitir de vez em quando? Por que essa minha mania de querer sempre a verdade? Eu só me dou mal!”. As pessoas não gostam de ouvir a verdade, então melhor enganar, iludir e permitir que vivam na ilusão.
Acontece que não gosto de ter o “rabo preso”, tenho pavor de ficar na mão de alguém por causa de uma mentira. E não sei se conseguiria olhar nos olhos da outra pessoa, sabendo que criaria uma mentira em cima de mentira para encobrir um deslize meu, um erro, um arrependimento. Eu menti, enganei, então mereço um “castigo”.
Mas não mereço ser castigada por dizer a verdade, pelo menos não tão cruelmente. Claro que dizer a verdade não te exime da culpa, da burrada que você fez. Mas pelo menos você não fugiu, não se acovardou e olhou a pessoa nos olhos para dizer “Eu fiz!”. Será que isso não é elemento para diminuir a pena? Não. Acreditem em mim. A verdade não diminuiu os “castigos” que me foram impostos por todos que a ouviram de minha boca.
No entanto, mesmo sendo castigada por dizer a verdade, duas coisas ninguém nunca tirará de mim: a primeira é que nunca deixarei de compreender, e perdoar, as pessoas que me brindarem com a verdade; a segunda é a certeza que tenho de que a verdade sempre nos liberta. Sempre.
Maria Claudia Peixoto.